quarta-feira, 6 de maio de 2009

TROCA

Vendo a sua tristeza
O passarinho eu soltei.
Ele solto, que beleza,
A alegria que me dei!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

PARANOIA URBANA (parte 6ª/6)

(continuação da postagem anterior)
Fixando, irada, os olhos dele, Mariana sentiu que ele baixava os braços, fazendo alguns movimentos desajeitados, e alguma coisa caiu dentro da sua bolsa. Então abandonou rapidamente o veículo, que havia parado em um ponto qualquer.
Ao sair, verificou que o homem não a havia seguido. A chuva, por um momento, a fez esquecer o seu pavor. Estava ainda longe de sua casa mais de seis quarteirões. Abriu a sombrinha branca e, descrente de conseguir um taxi, iniciou uma aflita caminhada para o seu apartamento. Escolhia ruas onde não havia paradas da linha do ônibus que usava. Com essa estratégia, imaginava evitar um reencontro com o abominável homem que a assaltara. Mas — ela se alegrou — conseguira recuperar o seu relógio, a jóia que mais estimava, entre as poucas que possuía, porque ela o comprara em substituição ao do seu marido, que fora roubado. Apressou o passo, receosa das ruas escuras e solitárias, repletas de árvores fantasmagóricas sacudidas pela ventania.
Ao entrar em casa, chorando, ouviu o som da campainha do telefone que ficava em cima da mesinha de cabeceira, no seu quarto. Quando chegou lá, o telefone parou de chamar. Porém ela não deu maior atenção ao aparelho, porque avistou, ao lado do mesmo, o seu relógio. Esquecera-se de colocá-lo no braço ao sair de casa para trabalhar, deduziu apavorada. “Então, o que é que está dentro da minha bolsa?” — perguntou-se, confusa.
Correndo para a sala onde tinha deixado a bolsa, ao entrar, abriu-a, vertendo todo o seu conteúdo sobre a mesa de centro. Entre um batom, um pente, um canivete com a lâmina exposta, uma carteira e um molho de chaves, jazia um elegante relógio masculino.
Abalada pela certeza da terrível delinquência do seu ato, ela deixou-se cair no sofá. As lágrimas, então, rolaram livres, em cascatas. “Assaltei aquele homem! E agora, o que é que eu faço?” — pensou, recriminando-se interiormente pela sua insensatez, prometendo a si mesma jamais agir daquele modo impulsivo.
Desconsolada, virou o objeto entre os dedos. No fundo prateado, leu a seguinte dedicatória, que ela mesma, há tanto tempo, mandara gravar:
“Ao meu querido Heleno, com o amor eterno da sua Ioneide Stella.”
F I M

domingo, 26 de abril de 2009

PARANOIA URBANA (parte 5ª/6)

(continuação da postagem anterior)
Após o café, Mariana e Valderez regressaram ao trabalho. O serviço arrastou-se com a mesmice costumeira.
Vendo os colegas se levantando, alguns já abandonando o escritório, Mariana cobriu com capas plásticas o terminal de computador que utilizava, guardou os papéis nas gavetas de sua mesa e trancou-as. Despediu-se maquinalmente dos colegas que ainda permaneciam no local e saiu do prédio. Na calçada, sob a marquise, ela constatou que a chuva persistia intensa. Abrindo sua sombrinha de tecido branco, estampada com a foto de um dos mitos atuais do cinema, ela procurou abrir caminho entre os pedestres na calçada, dirigindo-se para o ponto do ônibus que a levaria para casa.
No ponto, a fila estendia-se, comprida, ao abrigo dos toldos de uma padaria. As pessoas pareciam exprimir nos rostos um profundo desânimo. Mariana encostou-se com relutância na parede suja de fuligem. Estava cansada. As luzes das lâmpadas fluorescentes da padaria, incidindo no seu rosto através das portas abertas, acentuavam as minúsculas rugas que já se formavam ao redor dos seus olhos sem brilho.
O ônibus que ela esperava estacionou rente ao meio-fio. Ao sair da proteção dos toldos, seus cabelos se molharam e as suas roupas ficaram encharcadas, por causa da morosidade com que a fila evoluía. Quando chegou sua vez de subir, o ônibus arrancou, mas ela conseguiu agarrar-se ao apoio para as mãos e equilibrar-se precariamente no primeiro degrau. Empurrando violentamente o corpo para a frente, permitiu que a porta se fechasse, evitando uma queda fatal. Aos poucos, ainda assustada, Mariana foi seguindo pelo corredor e passou pela roleta do cobrador. Conseguiu espremer-se entre o grupo de passageiros situados mais à frente. Quase não havia espaço para ela. Estava apertada no meio de um punhado de pessoas que a acotovelavam, pisavam-lhe os pés, transmitiam-lhe a umidade que trouxeram da chuva.
O coletivo seguia pelas ruas alagadas. De repente, Mariana sentiu vários movimentos bruscos ao seu redor e alguém roçou com violência o seu braço esquerdo, onde usava o relógio, no momento em que o ônibus executou uma curva acentuada. Um homem encontrava-se virtualmente colado às suas costas. Ela virou a cabeça, encarando-o, mas o homem não retribuiu ao seu olhar. Ele aparentava observar, distraído, os reflexos brilhantes das luzes externas nas gotas da chuva coladas nos vidros das janelas. Ela olhou então para o seu pulso esquerdo e o seu relógio não estava lá. A raiva instantaneamente a dominou. Atordoada, Mariana retirou da bolsa um canivete e abriu sua lâmina. Contorcendo-se, ficou frente a frente com o homem. Fazendo com que ele visse a arma apontada para sua barriga, ela escancarou a bolsa, e disse-lhe:
— Rápido! Ponha o relógio na minha bolsa, imediatamente!
(continua na próxima postagem)

domingo, 19 de abril de 2009

PARANOIA URBANA (parte 4ª/6)

(continuação da postagem anterior)
Durante o intervalo para o café, Mariana reuniu as folhas do trabalho já terminado e dirigiu-se à mesa de sua chefe. Em cima da mesa, um objeto prismático anunciava, em letras douradas sobre fundo azul, o nome “IONEIDE STELLA GOMES” e o cargo “CHEFE DE SEÇÃO”. Mas quem recebeu as folhas impressas das mãos de Mariana foi sua colega Valderez. Com um indisfarçável corpanzil, alimentado ininterruptamente com perigosas porções de calorias, Valderez tinha o riso fácil e contagiante das pessoas sempre bem- humoradas. Eficiente, dedicada, era sempre escolhida para substituir a chefe nos eventuais afastamentos, como agora que Ioneide Stella ausentara-se do serviço em férias. Valderez acolheu, com evidente satisfação, o convite que Mariana lhe fez para tomarem juntas o café. Na copa, Mariana e Valderez sentaram-se a um canto, afastadas dos outros funcionários e puseram-se a conversar, depois que cada uma serviu-se de um copo de leite e pão com manteiga.
Como é comum acontecer em um diálogo entre colegas de trabalho, a conversa delas enveredou por um rumo inesperado. Após algumas considerações sobre o mau tempo, Valderez estava falando sobre Ioneide Stella, a chefe ausente. Mariana ficou sabendo que Ioneide Stella, proveniente de família pobre, conseguira formar-se em engenharia, enfrentando, consequentemente, dificuldades sobrehumanas. Enquanto estudava, obtivera uma vaga de estagiária na firma, onde estava desde os vinte anos. As agruras que enfrentara, talvez, a tornaram secarrona. Valderez riu, relembrando a ocasião em que Ioneide Stella reduziu verbalmente a frangalhos um deputado que pretendia suborná-la a propósito de um fornecimento de material superfaturado, colocando-o em seguida porta afora.
Mariana lamentou-se com Valderez que não conseguia fazer amizade com sua chefe, e confidenciou-lhe que até receava sua rudeza. Valderez concordou, acrescentado que Ioneide Stella não concedia intimidade a ninguém, mostrando-se sempre extremamente severa com os subalternos. Ela era assim, disse Valderez, mesmo com os funcionários que se destacavam no cumprimento dos seus deveres. Enquanto trabalhassem direitinho, tudo bem; mas, ai! se saíssem dos trilhos... seriam imediatamente advertidos e colocados em seus respectivos lugares, como o escriturário que Mariana estava substituindo, que ela achava ter sido despedido por pura perseguição de Ioneide Stella. No fundo, no fundo, afirmava Valderez, devia haver ali um coração de pedra. Ela não o abrandava por nada deste mundo. Também tinha o costume de esconder meticulosamente a sua vida pessoal, “que não é da conta de ninguém”, como ela não se cansava de dizer a qualquer um que tentasse imiscuir-se em sua existência privada...
(continua na postagem seguinte)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

PARANOIA URBANA (parte 3ª/6)

(continuação da postagem anterior)
Habituada à tranquilidade da cidade do interior, Mariana não se sentia à vontade com os costumes e as necessidades da vida metropolitana. Almoçar em restaurantes onde a falta de privacidade impunha presenciar ocasionais espetáculos grotescos, por exemplo; ou comer sanduíches suspeitos em lanchonetes abafadas; ou as curtas mas cotidianas viagens em ônibus com excesso de lotação, como agora, com um monte de guarda-chuvas gotejando sobre seus pés, constituiam para ela uma provação que solapava seu autocontrole. Ela lutava bravamente, mas sem sucesso, para se familiarizar com estes aspectos inconvenientes da sua vida, sentindo que precisava cimentar constantemente as bases da sua paciência para que não ruíssem. Apenas o retorno ao lar lhe proporcionava algum alívio, e seu único contentamento era ali permanecer, tentando esquecer os problemas, na companhia da sua filha.
Não gostava do seu trabalho: nele, era impossível se esquivar de intermitentes relacionamentos com clientes grosseiros ou mal-educados; havia, também, colegas importunos, aos quais não se devia conceder atenção além do mínimo de civilidade exigido pelas conveniências. Para piorar a situação, nem mais exercia as funções de secretária: sua chefe, sem maiores explicações, designara-a para substituir um escriturário que havia sido despedido, e parecia tê-la esquecido naquele serviço subalterno.
Dentro do escritório de engenharia, quando chegou da rua, o ar estava abafado e úmido. Mariana afundou-se na execução de um extenso e enfadonho relatório sobre o material de construção adquirido para uma obra em andamento. Ela era funcionária de uma firma de grande porte, que construía edifícios comerciais e residenciais e empreitava obras vultosas para setores governamentais. Apesar de atender eventualmente determinados clientes ou encaminha-los às seções apropriadas, seu serviço atual era específico e burocrático; porque não lhe exigia muito raciocínio, sonhava com a realização de tarefas mais complexas, ou a ocupação de um cargo de chefia. O acesso a ramos de atividades mais importantes frequentava-lhe a imaginação. Seria interessante, pensava, obter uma promoção que a afastasse das áridas pilhas de notas fiscais, que a livrasse das listas de materiais que aparentavam nunca ter fim.
(continua na próxima postagem)

terça-feira, 7 de abril de 2009

PARANOIA URBANA (parte 2ª/6)

(continuação da postagem anterior)
Mariana tinha os cabelos compridos, castanhos, e os usava como quando morava no interior, talvez na esperança de ainda continuar agradando ao finado. Estava bastante magra. Adquiriu a tendência de atribuir seu atual estado físico às tribulações dos últimos anos. Fazia exercícios aeróbicos numa modesta academia do bairro, de vez em quando, com má vontade, apenas para se livrar dos insistentes convites da filha fanática por todo tipo de atividade física. Ela simplesmente não compreendia como é que a malhação podia contribuir para melhorar o seu estado de espírito e a sua vida.
Ela ainda conservava alguns resquícios da vaidade feminina, mas não se considerava uma mulher bonita. Ocasionalmente, notava o interesse que ainda despertava no universo masculino. Mas não tinha desejo ou ânimo de incentivar a atração que pudesse despertar. Optara por dedicar os sentimentos do seu amor totalmente à sua filha. Ao centralizar suas energias em subjugar a constante preocupação de prover a subsistência de ambas, destruíra a possibilidade de satisfazer outros desejos íntimos.
Na cozinha do apartamento, mãe e filha comeram, rapidamente, a refeição matinal, entre um diálogo distraído sobre o dia aborrecedor que transcorreria sob a chuva. Ao terminar o lanche, Mariana levantou-se. Acompanhou a filha até a saída. Lá, recomendou-lhe que tomasse cuidado com os pivetes na rua e despachou-a para o colégio dando-lhe um beijo carinhoso de despedida.
De regresso ao seu quarto, despiu o roupão de banho. Vestiu roupas de trabalho, aplicou uma leve maquiagem, trancou cuidadosamente a porta do apartamento e saiu do prédio para tomar o ônibus que a levaria ao centro da grande cidade.
(continua na próxima postagem)

domingo, 29 de março de 2009

PARANOIA URBANA (parte 1ª/6)

Mariana flutuava na penumbra ofuscante do galpão. Visualizava-o como um escritório de dimensões desproporcionais, envolto numa sufocante neblina. O teto parecia baixar sobre sua cabeça, aumentando a sensação pungente de falta de ar; as goteiras deixavam-na ensopada. O lençol de água em que ela chapinhava concorria para imobilizá-la, tornando imprecisos seus esforços para sair daquele lugar. A umidade deslizou-lhe pelo ventre e vazou entre suas coxas... Em torno da sua virilha desenhou-se, nas calças jeans que vestia, uma mancha vermelha. Ficou envergonhada, como vítima de uma hemorragia íntima no meio de todas aquelas pessoas estranhas, que a circundavam com ares ameaçadores. Só a presença da chuva simulava uma espécie de realidade naquele sepulcral mundo de neblina...
A chuva fustigava as folhas das bauínias, plantadas em fila na beira da calçada, lá embaixo. Chovera a noite inteira...
Os dígitos vermelhos do rádio-relógio de cabeceira indicavam seis horas. O sistema despertador funcionou nesse momento, com uma estridência irritante. Mariana acordou desorientada, nas brumas do pesadelo, que se desfaziam. Aliviada com o fim do mau sonho, mas contrariada com a interrupção do seu sono, premeu o botão que desativava, por um breve período, o alarme do aparelho, cerrou os olhos e dormiu por mais cinco minutos. Essa espécie de ritual matutino repetiu-se por mais duas vezes. Por fim, ergueu-se da cama e aproximou-se da janela do seu quarto, dois andares acima da rua, que ela observou pelos vidros embaçados. A enxurrada descia pela sarjeta, rápida como uma cascata; o azul do céu cedia o espaço a escuras nuvens cinzentas, anunciando um dia típico de contínuo aguaceiro na capital.
Transpondo o corredor do apartamento, ela entrou no quarto da sua filha de dezessete anos e despertou-a. Depois tomou um banho de chuveiro, bem quente, mas, sem conseguir se relaxar, dirigiu-se para a cozinha onde preparou o café da manhã.
Mariana Alves Coelho era uma mulher de quarenta e seis anos. Enviuvara dois anos antes, após uma longa doença de seu marido, e vira-se compelida a trabalhar pela sua sobrevivência e a da sua filha. Aceitara a oferta de um amigo da família, dono de um escritório de engenharia, para trabalhar como secretária. Mas não possuía qualificação profissional maior que um razoável desempenho datilográfico. Acreditava, por isso, ter contraído uma dívida eterna para com o empresário. Para trabalhar, mudou-se do interior para Belo Horizonte. A loja de autopeças do marido foi vendida, e então ela comprou um apartamento pequeno, de dois quartos, em um prédio decadente do bairro Padre Eustáquio. Agora vivia da pequena pensão que recebia da previdência oficial e do seu salário de secretária.
(continua na próxima postagem)

quinta-feira, 19 de março de 2009

TOBÉ (parte 3ª/3)

(continuação da postagem anterior)
Das suas conquistas amorosas não fazia alarde, nem era espetaculoso. Para brindar ao amor certamente procurava em horas mortas os locais afastados, como a ladeira do Eclipse, além do Colégio Rio Branco, ou nos ermos da rua de terra que beirava o rio desde a ponte vizinha da agência do correio. Um amor de cachorro. Um cachorro, que digo?, um cão digno, que não fazia cachorradas, um exemplo de animal!
Ao redor daqueles anos inaugurei em Visconde do Rio Branco a exposição “Galos de Briga”, com quase vinte desenhos, no bar e restaurante do Waldo Peluso, nosso quartel-general de boemia. Entre outros, vendi dois quadros, nanquim e guache sobre cartão, figurados com as aves guerreiras, ao Mariozinho Bouchardet, para a Fazenda do Rosário ou Capela Velha, apagou-se da memória o nome correto da propriedade. Tobé comparecia, assíduo, apesar do frio úmido que penetrava os ossos da gente e só existe nas margens do Xopotó, rio imaginado azul por um poeta. Assentava-se perto da mesa, parecia um guardião das obras expostas e do nosso sossego.
Não permitiu ser transformado em bicho de estimação. Nunca se atirava, como a maioria dos vira-latas, aos restos de comida e ossos que o acaso fazia cair ou que fossem jogados das mesas ao chão. Sempre demonstrava bons modos.
Um dia, acabada a exposição, Tobé simplesmente sumiu. Tempos depois, passeava pela rua, de vez em quando. Não abanava o rabo; fingia, talvez, que não nos via. Não demonstrava lealdade. “...ser leal é ser desleal para com todo o resto.” (Clarice Lispector, em “Felicidade Clandestina”, págs. 56/57, Editora Rocco, 1998). Como autêntico representante da sua espécie, o exercício da liberdade era o seu instinto mais forte.
F I M

quinta-feira, 12 de março de 2009

TOBÉ (parte 2ª/3)

(continuação)
Tobé apareceu por volta de 1963, ou 64, 65... Chegou à casa, que foi nossa, na Avenida São João Batista, como se sempre tivesse vivido com a gente. Não disse nada. De repente, sem mais nem por quê, de surpresa, ali estava, como um fato rotineiro. Nunca o vi comendo. Tobé exibia sempre a estampa de um animal bem-alimentado. O pessoal lá de casa não teve tempo de criar o hábito de lhe dar comida. Na fresca sombra do caramanchão formado pela planta conhecida em algumas regiões por sete-léguas, trepadeira que nos dava cachos de belas flores cor-de-rosa além de mandruvás aos montes, reunia-se a moçada, assentada em tábuas de construção estendidas sobre pequenas pilhas de tijolos. Tobé assistia nossas reuniões aboletado sob um dos arcos — sempre o mesmo, o primeiro atrás da escada da entrada social — que davam acesso ao porão de ventilação do assoalho. Assuntava, estirado de barriga no chão e com as patas dianteiras sobre o nariz, como um canídeo que se preza. Uma das minhas irmãs, possivelmente a Marina, Malu ou a Maura, batizou-o de Tobé. Um nome original pra cachorro, anagrama de Beto, nosso primo da Rua Nova que possuía o mesmo temperamento bonachão. Afinal, era o Beto em figura de cachorro e o cachorro em figura de Beto.
(continua na próxima postagem)

quarta-feira, 4 de março de 2009

TOBÉ (parte 1ª/3)

Versos a um cão.
Pela estrada da vida subi morros
desci ladeiras... E afinal te digo:
se entre os amigos encontrei cachorros,
entre os cachorros encontrei-te, amigo!
A meu cão Príncipe.
Belmiro Braga


TOBÉ

(Em que se narra em breves linhas a história de Tobé, um vira-lata que era um lorde.)

Era o mais genuíno vira-lata. Justamente porque não se parecia com os vira-latas. Tinha o porte senhoril, auto-suficiente, originado sabe-se lá de que ancestral de fina raça, talvez de um perdigueiro com pedigree e medalha de quem herdara o fino faro, indispensável para encontrar comida nos lugares mais improváveis e suficiente para mantê-lo com a fina camada de gordura que o fazia parecer animal de estimação, sugerindo dono cuidadoso com sua aparência; ou era o resultado da mistura de sangue por cruza com labrador, de quem exibia a pelagem lustrosa cor-de-mel. A mansidão, com certeza, era o legado de algum cocker spaniel — porém não no comprimento dos pelos, que eram curtos, já grisalhando. Foi um dos poucos, senão o único, aturado pela minha incurável cinofobia. Um pavor que obscurece em mim a razão em luta contra os sentidos, que se opõem até à implícita homenagem desta crônica. Incrível era o seu respeito pela privacidade dos amigos: Tobé não tinha o obsceno hábito de cheirar-lhes as pernas ou as partes enfiando-lhes o focinho; nem a nojenta mania de algumas raças de lamber mãos, caras e bocas de amigos e desconhecidos, ou o irritante costume de saltitar em volta das pessoas tentando morder-lhes as pontas dos dedos. Também não latia nem uivava. Quando era necessário, fazia da sua voz um apelo quase musical ao dono ideal imaginário. Considerava-se amigo de todos, mas não pertencia a ninguém. Como um legítimo cão das ruas, só andava nas calçadas, entre os pedestres. Respeitava nosso direito de ir e vir, da mesma forma que o exigia para si. E não gostava de ser “tratado como cachorro”. Aliás, hoje em dia, é maior o número de cães bem-tratados. Excetuados, naturalmente, os esterilizados.
(continua na próxima postagem)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Beira lago - Boa Esperança, MG


Para dar uma canja do visual de Boa Esperança, MG, aos concorrentes do "VII Concurso de Contos de Boa Esperança/2008", aos meus amigos(as) e destemidos visitantes deste blog, segue uma foto, tirada pela minha irmã no ano passado, de um pequeno trecho da avenida - aqui, na parte central da cidade - que recebe vários nomes: Av. Juscelino Kubistchek (Centro), Av. São Vicente de Paula, Av. Gov Aureliano Chaves de Mendonça etc., denominada popularmente como Avenida Beira-lago (que tem um entorno de mais ou menos 10 Km, quase todo asfaltado, envolvido em grande parte pela cidade; um estreitamento do lençol d'água, feito por uma ponte, revela o acréscimo de mais 30 km à periferia do lago. Quase 3 vezes maior do que a Pampulha, em BeloHorizonte, ostentando o nome oficial de Lago dos Encantos, se presta à prática de esportes náuticos, caminhadas pelo calçadão ao lado da imensidão de águas azuis, pescarias etc. A cidade sedia atualmente etapas e o evento final da parte nacional do Campeonato Mundial de Jetsky. Possui ainda um circuito de motocross, que atrai pilotos e um bom público.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

MUITO PRAZER

“– Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.”
“– É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.”
“– Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.”
Do poeta João Cabral de Melo Neto, em "Morte e Vida Severina".

É o que sinto: um prazer imenso em iniciar, neste espaço virtual, o blog Literatema. E, através dele, poder comunicar-me com os leitores do nosso Brasil e, talvez, de outras partes do planeta.
Procurarei inserir neste espaço, dentro das minhas possibilidades, os mais variados assuntos e formas literárias, conforme sugere o título. Serão crônicas, contos, artigos, poesias, humor e casos que o leitor possa julgar pertinentes.
Confesso ao amigo leitor que escrever, para mim, não é uma tarefa fácil. Admiro escritores como Fernando Sabino, Millôr Fernandes ou Luís Fernando Veríssimo, que, dotados de uma fonte inesgotável de assuntos interessantes, parecem exercer sua profissão com a maior facilidade. Isto não acontece comigo. Fogem-me as idéias, os períodos encandeiam-se a custo, a palavra exata brinca de esconder.
Comparo as dificuldades de escrever com os obstáculos enfrentados numa escalada ao Evereste. Para mim, obviamente. Poucos chegam ao cume. Mas penso que é importante tentar. O alpinista sente-se realizado — mesmo que não consiga fincar sua bandeira no topo — quando sabe que encarou o desafio da montanha com coragem e vontade de vencer.
Nada melhor do que a poesia do mestre João Cabral de Melo Neto para exprimir o que sinto hoje, ao principiar este blog.

(Ver postagem anterior, de ontem.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

PRIMEIRA POSTAGEM

Há algum tempo, precisando fazer uma ligeira correção na página inicial deste blog, "viajei na maionese" e consegui a proeza de deletar todo o texto daquela postagem de 23/12/2007. Mas penso que algum leitor possa ter se dado ao trabalho de procurar o início desse modesto ajuntamento de frases, e dado de testa com "O pernilongo", que sobrevoava o ´texto inicial perdido. Em defesa de minha experiência com computadores, declaro que o meu PC estava meio esquisito, e tomava a liberdade de agir, em alguns casos, por conta propria, fazendo aparecer janelas com escritos em inglês, dos quais eu só entendia o "ok", mas o medo de aumentar o prejuízo vencia a vontade de clicar na tentadora tecla, que possui o charme de só produzir bons resultados. Creio que foi isso que aconteceu. Porque eu não faço a menor idéia para que servem as teclas de F1 a F12, Esc, Ctrl, turbo etc.; como não lhes reconheço a serventia, nelas não toco. A não ser inadvertidamente, o que não deixa de ser uma hipótese viável para o desaparecimento das letras.
Bom, mas vamos ao que interessa: amanhã postarei "Muito prazer", que é o título primeiro deste blog, e assim ficará registrado para o seu arquivo, evitando que leitores muito curiosos sejam molestados pelo inseto (não é o mosquito da dengue) que agora guarda a porta de entrada das suas páginas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

MEUS AMIGOS E AMIGAS

Estive afastado por uns tempos, na capital, durante o mês passado. Fui submetido a uma pequena cirurgia que, dando alguns problemas, tomou alguns dias para me ver livre dela. Também estou com bastante trabalho para fazer, não tem sobrado muito tempo.
Gostaria, agora, compensá-los pelo aborrecimento de abrir um blog que nada apresenta, um livro em branco. Como não sei como fazer, mando para vocês, pelo menos, a quadra seguinte:

MANCHETE

O sol, filmado de longe.”
A dúvida eu logo anoto:
Como um objeto tão grande
Cabe em uma simples foto?

Com os abraços do
Lamartine Miranda

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

RELAÇÃO DE PREMIADOS NO 7° CONCURSO DE CONTOS DA ADL, DE BOA ESPERANÇA, MG

Prêmio “Áurea Netto Pinto” 1 o lugar: R$ 1.000,00, troféu e diploma
Maria Apparecida Sanches Coquemalla – “In/Justiça" – Itararé, SP

Prêmio 2o lugar: R$ 500,00, troféu e diploma
Benilson Toniolo* – “O poeta no supermercado” – Campos do Jordão, SP

Prêmio 3 o lugar: R$ 300,00, troféu e diploma
Édson Ferreira de Ázara– “A morte morta” – Boa Esperança, MG

Prêmios de Menção Honrosa: Diplomas. (Em ordem alfabética de autor.)

Antonio Ribeiro – “A viúva feliz” – São Paulo, SP
Cecy Barbosa Campos – “O homem transparente” – Juiz de Fora, MG
Éder Rodrigues* – “Do lar” – Belo Horizonte, MG
Fabiana de Oliveira Ribeiro – “Colégio Cinza” – Alterosa, MG
Gilson Eustáquio Chagas – “Cidadania... O resgate pra vida” – São José do Rio Preto, SP
Luciane Godinho da Silva – “O sacrifício do rei” – Porto Alegre, RS
Márcia Regina A. Duarte – “Pirei com a cabeça da minha amiga” – Rio de Janeiro, RJ
Máua Levi de Santana* – “Um dia menos os outros” – Jaboatão dos Guararapes, PE
Orlando de Arco e Flexa Neto – “O mundo do Homem Azul” – Monte Alegre do Sul, SP
Ritamar Invernizzi – “Hibernal” – Bento Gonçalves, RS
Reginaldo Costa de Albuquerque – “5o andar” – Campo Grande, MS
Simone Pedersen* - “A primeira desilusão a gente nunca esquece” – Vinhedo, SP
Solange Firmino* - “Tudo muda” – Rio de Janeiro, RJ
Sulamita Coelho Amaral – “O medo” – Divinópolis, MG
Tânia Cristina Dias – “Alfazema” – Nova Lima, MG
Vítor Menezes* – “O cavador de cisternas” – Boa Esperança, MG
Yvelise A. Queiroz e Crepaldi – “Admirador secreto” - Itajubá, MG

(*): Nome literário.


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Acadêmica Prof.a Marisa Parreira
Presidenta da A.D. L.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

VERDE NOVO

Só verde desejo ver-te,
é a cor que sempre louvo...
Para verde sempre ter-te.
Vale a pena verde novo!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

PERGUNTAS (3)

Ah! Têm também as perguntas feitas através dos antigos e dos atuais meios de comunicação à distância. Esses sistemas, a seu tempo, foram aclamados como a solução definitiva, desde a sinalização com tambores, espelhos (quando havia sol) até os satélites artificiais propagando a internet. Não há dúvida que foi o seu vertiginoso desenvolvimento que propiciou a globalização. Agora, hoje, se comunica melhor? Às vezes não! Devido ao avanço da alta tecnologia, é comum constatar que se agride ou difama-se, hoje, com muito mais rapidez e eficiência; ou rola uma excessiva quantidade de tolice. Como dizia o mestre Chacrinha: “Quem não comunica, se trumbica”.
— Kladvu odgwa bekorinda o narid estylude?
Decodificação da seguinte pergunta expedida em código Morse por um aprendiz de telegrafista (russo, certamente): — Alguém está captando a minha mensagem?
— Como vai você?
Depois da invenção da telefonia móvel e do e-mail, se esta pergunta for feita por carta, há até a possibilidade do destinatário não poder respondê-la por já estar internado numa UTI, ou mesmo já ter passado desta vida para outra melhor quando ela for entregue.
— Alô, quem fala?
Indagação disparatada, uma vez que se sabe de antemão para quem se discou, ou melhor: digitou. Na dúvida, o correto é declarar, imediatamente, o próprio nome e com quem se deseja falar, “por favor”. Se atendeu a pessoa com a qual se queria falar, tudo bem, ela vai confirmar que é ela mesmo que está atendendo. Caso contrário, ou foi erro de discagem ou digitação (hipótese na qual, mais uma vez, deve-se demonstrar educação e pedir desculpas pelo engano), ou a chamada foi correta e atendida por outra pessoa, eventualidade em que se deve proceder exatamente como no caso de dúvida, acima.
— ???
Angustioso estado interrogativo determinado pela necessidade não satisfeita, e em boa parte das vezes importante, ou mesmo vital, de informar-se sobre alguma coisa, quando se disca ou se digita um número e a secretária-eletrônica ocupa a linha com a explicação: — A Telecelubrás informa: o número chamado encontra-se fora de área de serviço, ou desligado.
— CRISE: POR QUÊ?
Se vocês pensam que esta foi a manchete do jornal de hoje, estão muito enganados. Ela encabeçava, em caixa alta, a primeira página do número inaugural do hebdomadário intitulado “O Segredo da Esfinge”, publicado semanalmente, como todo hebdomadário que se preza, pelo escriba particular de Ramsés II. Dizem os historiadores que esta pergunta, repetida diariamente pelo populacho, motivou a inauguração de antiqüíssimo e misterioso pasquim, com um editorial ainda mais enigmático. Pois o escriba do faraó imaginava, já naquela época, saber explicar, em precisos hieróglifos, o porquê das crises.
— De onde teclas?
Interrogação comum em “salas” de bate-papo da internet. Usando quase sempre a segunda pessoa do singular, porque a terceira soaria esquisito, presumem os internautas. Um iniciante digitaria simplesmente: — De onde você escreve? — mas o expert tem o sagrado dever de ser diferente, senão ficaria meio fora de propósito aplicar-lhe a qualificação.
— Alô. Tá me ouvindo, Juquinha?
Juquinha joga no chão, com força, a sua parte do “telefone de lata” com que brinca com Chiquinho, e grita: — Já falei que você tem que esticar bem o barbante, seu burro!...
F I M

sábado, 29 de novembro de 2008

FIDELIDADE ASSASSINA (parte 5ª/5)

(continuação)
As risadas de Pedro Paulo e seus dois amigos, ecoando do caminho que os trazia do poção do Corguinho dos Lambaris, onde estiveram nadando, não foram percebidas por Justino. O vespeiro que zumbia em seus miolos distraía-o de praticamente tudo em seu redor. Sentia-se desamparado, envolvido pela revolta surda dos humildes pisoteados que não têm para quem apelar. Desse jeito, seguia seu trajeto no mais completo alheamento, entretido em desfiar as suas mazelas.Encontraram-se na encruzilhada da aroeira. O caminho de Justino foi barrado pelos rapazes, que haviam pressentido a sua chegada.— Aonde você vai, Justino? — indagou Gaspar, excitado, acertando curtas cotoveladas nas costelas de Pedro Paulo para ressaltar a sua intervenção.Com um sobressalto, Justino parou. O grupo postara-se à sua frente de tal maneira que, para passar, ele seria obrigado a entrar no mato fechado.Pedro Paulo acercou-se da gamela erguida sobre a cabeça do rapaz. Correndo os dedos pelas fitas de celofane verdes e vermelhas, cujas pontas pendiam por baixo da alva toalha que cobria o assado, disse, cantarolando sarcasticamente:— Justininho está carregando alguma coisa bem gostosinha!... — E perguntou, de chofre, fingindo seriedade: — Aonde você vai? — Vô levá uma leitoa assada pra dona Teresinha, Pepê, não está vendo? Mandado de dona Amélia — respondeu Justino, tentando trazer a autoridade da patroa para aquela terra-de-ninguém.Os rapazes passaram a arreliar o mulato relembrando, com caretas gaiatas e risadas forçadas, as artes da tarde. Apelando para toda a sorte de macaquices, sempre insinuando a intenção de comer a leitoa, eles não o deixavam passar. Justino apalpou a faquinha de picar fumo presa em sua cintura. Procurava sufocar a sua raiva; queria, apenas, seguir adiante e cumprir sua obrigação. Mas a sua fidelidade estava à prova: como cumprir as ordens de dona Amélia sem provocar uma briga com o Pepê era um problema que só vinha aumentar a sua perturbação.Pedro Paulo propôs: — Você deixa a leitoa comigo, que nós a entregaremos para a dona Teresinha. Aí, você volta e fala pra mãe que fui eu que mandei... — Ato contínuo, levantou os braços para agarrar a gamela. Justino, num gesto de autodefesa, sacou a faca da cintura.— Sou eu que vou entregar a leitoa, Pepê. Dona Amélia mandou...A faquinha não intimidou Pedro Paulo. Ele continuou rindo, tentando tirar a gamela da cabeça de Justino. Numa última tentativa para forçar a passagem, Justino ergueu a mão direita e golpeou o peito de seu oponente, como se quisesse espantar uma incômoda mosca que ali estivesse pousada. Pedro Paulo caiu, sem um grito, e Justino passou pelos três, também em silêncio.Em volta de Pedro Paulo, esparramado no chão, morto, Gaspar e Baltasar se atarefavam em constatar a defuntice do amigo. Abriram a camisa ensangüentada de Pepê, inspecionaram o pequeno corte no peito, espantados de que uma ferida tão insignificante pudesse arrematar uma vida. Trocaram breves palavras, os seus gestos reproduzindo movimentos desordenados e apavorados. Por fim, recuperando algum controle, dispararam na direção da Ouro Verde, para avisar seu Chico Alvarenga e dona Amélia.Justino pôde cumprir, assim, tanto o que lhe fora ordenado por dona Amélia, quanto o que lhe tinha reservado o destino. Mas nunca ficou sabendo — segredo trancado a sete-chaves — que tirara a vida do próprio irmão.
F I M

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

FIDELIDADE ASSASSINA (parte 4ª/5)

(continuação)
A ajudante Zenilda nem percebeu a queda de dona Filomena. Imediatamente após a explosão, branca como um lírio, dirigiu-se em desabalada carreira na direção da porta aberta da cozinha, procurando sossego e melhores companhias. Assim, não teve oportunidade de presenciar a reação de Justino. Ele apareceu no meio da fumaça, enquanto os três rapazes riam de rolar. Durante alguns segundos pareceu que ele ia direto para cima de Pedro Paulo. “Miserável... Eu vou acabar com você.”, pensou Justino, enlouquecido de raiva. Entretanto, passados alguns instantes, em que ele ficou olhando fixamente para Pepê, fez meia-volta, aproximando-se de dona Filomena para auxiliá-la a levantar-se. Em seguida, ajudou-a a caminhar, trôpega, até a cozinha, onde a esperavam, de olhos arregalados, Matilde, Lourdes, Luzia e também a dona da casa, dona Amélia, que acorrera dos seus aposentos para assuntar o motivo da algazarra.
As mulheres reavivaram dona Filomena sem muita dificuldade, com o simples recurso de verter-lhe pela goela abaixo um copo de água com açúcar. Dona Amélia, percebendo a recuperação da sua doceira, encaminhou-se para o portal, com a finalidade de descarregar sua irritação desancando os três velhacos. Agora já não mais tão hílares com as conseqüências da tramóia, mas ainda gozando a perturbada corrida de Zenilda e o ridículo desfalecimento de dona Filomena, eles ficaram observando, inquietos, o surgimento de dona Amélia sobre os degraus.
— Ô de casa! — chamou Tião, nesse momento, com voz nasalada, vindo pelo meio do terreiro de café. Trazia, sobre a cabeça, uma gamelona de madeira contendo dois belos perus assados, recheados com fina farofa de uva passa, presente mandado pelos seus patrões da fazenda Pau d’Óleo para os donos da Ouro Verde.
Com a chegada de Tião, ou por causa dos perus, dona Amélia desistiu de ralhar com Pedro Paulo e seus dois companheiros de fuzarca. O sermão que pretendia resmungar para eles ficou para o dia de são-nunca. Ela se apressou em receber os perus, determinando que Zulmira servisse café para o empregado da fazenda confrontante, enquanto pensava na maneira mais adequada e mais tradicional de retribuir o mimo enviado pela Teresinha, que era a vizinha sua comadre e velha amiga.
Quando o relógio da sala de visitas anunciou as seis badaladas indicadoras do fim da tarde, o problema de dona Amélia ficou resolvido. Na mesma gamela que trouxera os perus, acomodava-se agora uma leitoa assada, enfeitada com rodelas de limão galego e fitas de “papel” celofane verdes e vermelhas. Na falta de Tião, que não pudera esperar o preparo da leitoa e regressara à propriedade de seus patrões, dona Amélia resolveu designar Justino como o portador do seu presente para a comadre Teresinha. Entre as recomendações rotineiras com que atulhou os ouvidos de Justino, insistiu também, movida pela vaidade com que fitava a leitoa ataviada, para que ele entregasse o presente apenas para a sua comadre, e que prestasse atenção à cara que dona Teresinha fizesse, para lhe contar na volta. “Entregue somente a ela, e a ninguém mais”, remandou, enquanto ele descia os degraus da varanda.O protegido de dona Amélia, carregando a gamela recheada sobre a cabeça, embrenhou-se pela trilha aberta através do capim-gordura por pés humanos, cascos bovinos e eqüinos, e, em alguns lugares de mata alta, a golpes de machado, foice e facão. Caminhava automaticamente, como se cada passo fosse atraído pela picada que se desenhava adiante sinuosa e de rumo quase aleatório, porém evitando os troncos das árvores e outros obstáculos naturais. Seus pensamentos, uma balbúrdia. O bafafá com a pólvora no telheiro, tramado pelo Pepê e os outros dois abelhudos, deixara-o extremamente perturbado e magoado. As coisas seriam diferentes se não descambassem, de uma maneira ou outra, para as brincadeiras de mau-gosto: até que simpatizava com o Pepê, sempre de riso fácil e bom-humor contagiante. Só não gostava das petas. Além disso, a sua fidelidade à família do patrão obrigava-o a estender a todos a sua submissão, inclusive ao Pepê, malgrado suas brincadeiras idiotas. Mas Justino não tinha consciência que sua fidelidade à família não passava de mera retribuição à casa e comida que dela recebia. Por isso, o ressentimento que pesava sobre os seus ombros estava sempre presente, mais ou menos incômodo conforme as circunstâncias, mas abafado.
(continua na próxima postagem)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

FIDELIDADE ASSASSINA (parte 3ª/5)

(continuação)
Justino estava sendo muito requisitado. Andava de um lado para o outro, ora providenciando açúcar, ovos, canela em pau ou em pó, farinha de trigo, manteiga ou outros condimentos para os bolos, sonhos e pudins de Luzia, ora descascando, dividindo ao meio e descaroçando goiabas vermelhas para as compotas de frutas de dona Filomena; ou colhendo cheiros-verdes na horta para temperar os embutidos fabricados por Lourdes e Matilde.
Soaram duas horas da tarde no esbelto relógio de pedestal, encastelado na caixa de jacarandá adornada com entalhes de motivos silvestres, da sala de visitas. O grande forno convexo ainda não fora aceso. Pedro Paulo chegou ao telheiro junto com Gaspar e Baltasar, dois rapazes com idades aproximadas à dele, filhos do senhor Aureliano Braga Vilela, proprietário da contígua fazenda Pau d’Óleo. Os três ficaram pelos arredores do telheiro papeando, camuflando intenções, enganando a vigilância de dona Filomena com o fingir excessivo interesse no andamento da compota de pêssegos verdes, quase pronta, ebulindo no tacho.
O doce de pêssegos ficou pronto. Dona Filomena transferiu-o para latões, para esfriar. Os recipientes eram latas de mais ou menos vinte litros, estampadas com a marca do querosene “Jacaré” ou da gordura de coco “Carioca”, mas vendidas barato, lavadas e limpas, para as donas-de-casa pelos armazéns e vendas. Depois, dona Filomena despejou a massa de goiaba moída e peneirada no tacho, acrescentou um desperdício de açúcar, e mandou Zenilda, moça meio lerda que a estava ajudando, ficar mexendo a mistura enquanto ia à cozinha a fim de tomar café, buscar mais ingredientes para os doces e espairecer tagarelando com suas amigas. Nem bem ela desapareceu pela porta, os três malandrões puseram-se esbaforidamente em movimento. Pedro Paulo tirou de um esconderijo um saco de lona sujo e agachou-se atrás da fornalha. Com a ajuda de Baltasar, e com a supervisão crítica de Gaspar, começou a derramar no chão um rastro de pó, negro como carvão. Deixaram o saco, meio cheio, no fim da trilha escura, escondido por uma das grossas colunas de madeira que sustentavam o telheiro. Cobriram a trilha com a palha de arroz que juncava o chão. Em seguida, foram procurar Justino para acender o forno, pois Luzia precisava assar os pães de queijo. Quando o encontraram, fizeram questão de acompanhá-lo, alegando a pressa de Luzia em começar a assar as quitandas como motivo para ajudá-lo a acender o fogo.
A lenha já estava preparada, cortada em achas regulares. Dona Filomena — que já havia regressado da cozinha — e os rapazes ajudaram Justino a introduzir a lenha na abertura própria do forno, sobre um monte de gravetos e ramos secos, que ardeu imediatamente ao contato da brasa da binga usada por Justino para acender e fumar os seus palheiros. Os rapazes afastaram-se para um canto. Dona Filomena despachou Zenilda para a limpeza das enormes colheres de pau, com medo de que a menina bronca perdesse o ponto do doce. Justino inclinou-se para avivar a chama incipiente com sopros. Enquanto soprava, as fagulhas espargidas atingiram o rastilho de pólvora engendrado por Pepê, provocando uma explosão de luz e fumaça. O relâmpago atravessou quase todo o telheiro — pouco faltando para incendiar as saias de dona Filomena — e atingiu o saco escondido num estouro ensurdecedor. Dona Filomena, tendo escapado de virar uma tocha humana, teve ainda a sorte de tombar para a esquerda, ao desmaiar com o susto: se tivesse despencado para o lado contrário, certamente teria caído dentro do tacho, aonde agora borbulhava, feito um pequeno vulcão, a acobreada massa de goiabas para o “doce de cortar”.
(continua na próxima postagem)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

FIDELIDADE ASSASSINA (parte 2ª/5)

(continuação)
Para Justino, a vida não era nem boa nem ruim. Eram-lhe dados teto e comida. Trabalhava, em troca disso, desde a hora em que acordava, às cinco da madrugada, até a hora de deitar-se, sob a tutela e a tirania de dona Amélia. Tirava leite das vacas, matava e limpava frangos e porcos, servia à mesa e de moleque de recados. Porém, entre uma tarefa e outra, desfrutava de bastante tempo livre para acabrunhar-se, seja vadiando entre o terreiro de café e os currais, à sombra das jabuticabeiras, ou intrometendo-se na lengalenga das empregadas enquanto ultimavam um almoço ou um jantar na espaçosa cozinha da casa senhorial.
Seu Chico o evitava e raramente lhe dirigia a palavra; dona Amélia o azucrinava com ordens o dia inteiro, mas ele sempre achava um jeito de escapulir da sua prepotência. O pior que lhe sucedia era agüentar calado as brincadeiras sem graça de Pedro Paulo, um maganão louraço um ano mais velho do que Justino, filho último e temporão do casal de fazendeiros. Pepê, como era também chamado pelos familiares, estava atingindo a maioridade e era o único, entre seus outros nove irmãos, a permanecer na companhia dos pais. Justino odiava as peças que o Pepê lhe pregava, a maior parte das vezes quando estava desprevenido, acabando ainda por ter de suportar as acintosas gargalhadas do caçula peralta.Naquela véspera do primeiro dia do ano, a rotina da casa sofreu um esperado transtorno. Os hábitos pacatos e econômicos, observados durante a maior parte do tempo, foram voluntariamente deixados de lado. Dona Amélia convocou a força de trabalho das mulheres de alguns agregados. Chegou dona Filomena, ao raiar do sol, para comandar a feitura dos doces no gigantesco tacho de cobre, instalado de modo perene sob um telheiro atrás da cozinha. Matilde e Lourdes vieram dos ranchos que ocupavam, erguidos à beira do Corguinho dos Lambaris, para cuidar das carnes dos porcos e das aves, fazer lingüiças e chouriços, assar lombos e pernis no forno de barro, em forma de iglu, construído sob o mesmo telheiro, e pururucar leitoas no fogão da cozinha. Também Luzia, que dormia na casa-grande em semelhantes ocasiões porque morava mais distante, no retiro do pastinho da serra, desde a madrugada se esfalfava na confecção de bolos e das guloseimas e dos doces mais finos.
(continua na próxima postagem)

sábado, 1 de novembro de 2008

FIDELIDADE ASSASSINA (parte 1ª/5)

— Justino — gritou uma voz feminina, decrépita, do corredor que levava dos quartos ao banheiro da fazenda.
Na cozinha, o mulato sarará estremeceu com o grito. Durante os oito últimos anos enraizara-se o pavor que medrava em seu peito ao ouvir aquele grito, quase dia após dia.
— Pode servir o café — completou a voz esganiçada de dona Amélia, no mesmo tom usado para chamar o seu protegido.
Protegido. Era assim que Justino era conhecido por todos, o protegido da casa-grande da fazenda Ouro Verde, situada no sul de Minas Gerais. Aos dez anos, fora ali deixado pelos pais, camponeses que abandonavam as lavouras de café em crise juntamente com centenas de outros, para tentar ganhar a vida nas cidades. O governo do único mandato presidencial eletivo de Getúlio Vargas havia arbitrado queimar café para revalorizar o produto; então, montanhas de café foram incineradas, sob a mira das armas embaladas do Exército. A irrisória indenização paga pelo governo provocou a falência de muitos cafeicultores. A crise fustigou toda a região, reduzindo drasticamente a produção da Ouro Verde. Francisco Alvarenga, proprietário da fazenda e marido de dona Amélia, foi obrigado a dispensar muitos empregados, entre eles João do Carmo e sua mulher Jandira, pais de Justino.
Justino remexeu os teréns do café de maneira canhestra. Reunindo coragem, ousou replicar dona Amélia, dizendo-lhe que a mesa já estava posta e que se apressasse, senão o café ia esfriar no bule. Enquanto isso, passeou os olhos pelas gamelas alinhadas em cima de um aparador onde jaziam os leitões abatidos, ainda naquela madrugada, para as comemorações do dia de Ano Novo. Cobriu as vasilhas com uma toalha. Lembrava-se, de um modo muito obscuro, do dia da partida dos seus pais. Tinha imaginado que eles o levariam também para a cidade, mas ficara surpreso quando Jandira, depois de conversar em particular com seu Chico Alvarenga durante um bom tempo no escritório dele, pegara-o pela mão e o entregara a dona Amélia. Em seguida, sua mãe subira com João do Carmo para a traseira do carro de bois, foram-se embora e nunca mais deram notícias.
(continua na próxima postagem)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

ANDANÇAS

ANDANÇAS

Nas estradas desta vida
Já fiz muitas andanças;
Ganhei na dura lida
Um calo e mil lembranças.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

MONUMENTOS

O asfalto negro
invade o verde,
o deserto marrom.

A existência, impossível,
nos jardins de seixos
orientais.

Flores de pedra
nas mãos de artífices
são provimentos
imateriais.
Pobre beija-flor,
onde encontrará
alimentação?

Apreciaremos
pássaros de granito
ornamentais
!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

PERDA DE TEMPO (parte 2ª/2)

(continuação)
Assistir novela é um desperdício de tempo. Imagine a quantidade de bijuteria, para citar um exemplo banal, que apenas uma pessoa produziria em cada capítulo. Se o espectador-artesão trabalhasse bem e vendesse a mercadoria produzida do início ao fim da novela, daria para pagar os aluguéis do apê durante dois meses pelo menos. Se não vendesse, poderia enfeitar toda a família e as amigas e os amigos chegados a um berloque. Assistir novela é como querer viver através da simulação dos atores. Uma vida sem lembranças (mas a Déborah Secco...), um tempo apagado na lousa das emoções, uma interdição voluntária ao direito de adquirir novas experiências. Ver um filme é diferente. Acaba em duas horas e, às vezes, temos que sair de casa para ver. Sair de casa pode ser uma experiência indescritível, lembra coisa de rico. Ademais, quem é rico não admite nunca que assiste novela ou que come croquete...
Tempo gasto com mexericos e conversa jogada fora. Tempo gasto para cortar cabelo e as unhas toda semana. Digo as unhas das mãos, porque com as dos pés... gasta-se muito mais tempo. Que dificuldade, à medida que se envelhece os pés começam a afastar-se do contato com as mãos!
Estava esquecendo o tempo perdido para votar. Quantas vezes já votamos, meu Deus, e parece que nada adiantou! Ainda bem que não tem eleição todo dia.
Dizem os pescadores que Deus não desconta da nossa vida o tempo que passamos pescando. Mas, certamente, descontará o que passamos xereteando a vida do vizinho que só melhora de situação e que acabou de comprar uma Brasília amarela de segunda-mão. Queiram os céus que Ele não considere inútil e, portanto, não apague o tempo que passei escrevendo esta crônica. Ou o que você passou lendo estas despretensiosas linhas.
F I M

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

PERDA DE TEMPO (parte 1ª/2)

— Isso é pura perda de tempo!
Quantas vezes ouvimos estas palavras no nosso cotidiano. Tempo perdido. Segundos, minutos, horas, dias... a meter-nos com coisas inúteis, como preencher volantes para o sorteio acumulado da mega-sena; ou com as inevitáveis, mas que nos são impostas ou exigidas, seja pela natureza, como o sono ou esperar a chuva passar, seja pela sociedade, como fazer visita sem avisar no horário nobre da novela, quando pinta aquele silêncio e fica todo mundo olhando para a telinha com cara de panaca; ou pelo governo, como o preenchimento anual da declaração do imposto de “renda”. Ou com as coisas que, aparentemente, só nos fazem mesmo é perder tempo, como brincar carnaval, quando todo mundo acha que não perde tempo porque o brasileiro gosta de sambar.
O tempo que passamos dormindo pode ser considerado definitivamente perdido, o que reduz em um terço, no mínimo, a duração de nossa vida, segundo recente estatística. Se o sujeito atinge sessenta anos, viveu quarenta; vinte, passou dormindo. Sem incluir as horas gastas para arrumar a cama. E os cinco primeiros anos, da infância, dos quais ninguém se lembra? (Se alguém falar que lembra, só se estiver fazendo regressão cronológica com o psicanalista.)
(continua na próxima postagem)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

OPÇÃO

Quem muito fala se revela,
a críticas não dê motivo:
ao ver “Mein Kampf” na tela
não diga: — Gostei mais do livro!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

PESCA ESPORTIVA (parte 2ª/2)

(continuação)
A fauna aquática é protegida com lei severa, que prevê pesadas penas para quem a desrespeita. Porém, tive o desprazer de presenciar, no lago de Boa Esperança, a pesca de exemplares de tucunaré (espécie importada da bacia amazônica para o lago de Furnas), que não ultrapassavam duzentos gramas. O tucunaré atinge até mais de seis quilos e faz parte das espécies que a lei protege. Disse isso para o pescador e ele, rindo, retrucou que se ele não os pescasse outros pegariam aqueles peixinhos.
Normalmente, alguns peixes que não atingiram pleno desenvolvimento são inadequados para o consumo. Dourados e traíras, por exemplo, com peso inferior a um quilo são verdadeiros espinheiros, tornando quase impossível e certamente perigosa a sua ingestão.
É conveniente que se promova o peixamento dos rios e lagos, mas esta atividade, isoladamente, não é suficiente para manter ou aumentar a oferta de pescado, tanto para o consumo quanto para o esporte.
Enquanto houver pesca com redes de malha fina, tarrafas, arrastões e até dinamite, e perdurar a criminosa pesca predatória na bacia hidrográfica brasileira, prejudicando, dessa maneira, o desenvolvimento do nosso turismo, não haverá condição para o pescador amador obter satisfação na prática do seu esporte predileto usando apenas os apetrechos que lhe são permitidos.
A prática da pesca esportiva no lago de Furnas e de outros lagos, lagoas e rios poderia atrair um grande contingente de turistas, contribuindo para o desenvolvimento sustentado das regiões onde a lei fosse respeitada.
F I M

terça-feira, 23 de setembro de 2008

PESCA ESPORTIVA (parte 1ª/2)

A televisão tem mostrado programas focalizando pescarias onde o peixe capturado é imediatamente devolvido à água. É a pesca esportiva, que oferece aos aficionados todos os prazeres da atividade, exceto levar o peixe para casa. Soltar o peixe torna-se uma bem-vinda opção para o pescador consciente que deseja perpetuar os prazeres da pesca para si mesmo e para as gerações futuras.
Libertar esportivamente o peixe significa, também, contribuir para a ampliação da oferta de uma carne extremamente saborosa e saudável, sob o ponto de vista alimentar. A pesca, vista como atividade econômica realizada por agentes devidamente licenciados pelos órgãos públicos competentes, seria beneficiada com o aumento da produção. Como conseqüência, o pescador profissional veria garantida e aumentada a sua renda e o consumidor seria premiado com substancial redução do preço do peixe no mercado.
O dourado e o pintado, assim como várias outras espécies relacionadas na lei, gozam de amparo específico, que determina o tamanho mínimo do pescado e também o peso máximo permitido a cada pescador amador portador da respectiva licença. A preservação das espécies distinguidas fica assim garantida. Porém a lei omite o nome de alguns tipos de pescado, permitindo a sua captura em qualquer estágio de tamanho. Por exemplo, tilápias e traíras são peixes que atingem certo porte, mas podem ser embarcados e comercializados com qualquer tamanho e em quantidade ilimitada.
“O peixe morre pela boca”, esclarece o ditado, mas esconde que o pescador profissional é prejudicado quer pela própria falta de perspectiva econômica, quer pelo criminoso desempenho de colegas mal-intencionados e ação criminosa de amadores vândalos.
(continua na próxima postagem)

sábado, 20 de setembro de 2008

PESCADORES